• A visão individualista e o diálogo

    A decisão de criar e mostrar reflete uma transição importante na mentalidade de quem cria: a passagem da visão individualista para uma percepção mais ampla do impacto do seu trabalho.
    Muitos artistas, escritores e criadores em geral hesitam em expor o seu trabalho por entenderem que o acto de se mostrar ao mundo é um movimento egocêntrico. No entanto, há um momento em que essa perspectiva se expande: a criação deixa de ser apenas um acto pessoal e passa a ser uma forma de comunicação e diálogo com o mundo.
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    Isto ocorre porque a arte e a criatividade têm um papel essencial na cultura e na sociedade. Seja na literatura, na música, nas artes visuais ou em qualquer outra forma de expressão, aquilo que se cria pode gerar identificação, reflexão e transformação nos outros. A obra como algo que pertence não só ao criador, mas ao público que a recebe e interage com ela.

    A arte é um diálogo, e guardá-la apenas para si pode ser um desperdício do seu potencial. Esse pensamento ressoa muito com a ideia de que a criatividade é um fluxo que precisa de ser compartilhado, não acumulado. Afinal, grandes obras e movimentos artísticos só se tornam significativos porque foram colocados no mundo e permitiram que outras pessoas se conectassem a eles.

    A criatividade, quando compartilhada, vai muito além da vaidade. O que se cria pode inspirar, emocionar, fazer alguém reflectir ou até simplesmente trazer beleza para o dia de outra pessoa.

    A arte não precisa de uma justificativa além da própria vontade de existir. E se alguém se identificar, já terá valido a pena.

    Desafiar os próprios bloqueios e crenças limitantes abre espaço para descobertas incríveis.

    Há mesmo um lado egótico na arte e na escrita — afinal, criar envolve expressar algo que vem de dentro, dar forma ao próprio olhar sobre o mundo. Mas será que isto é um problema?

    O ego não é necessariamente algo negativo. Ele é parte do que nos torna humanos, do que nos dá identidade. O problema acontece quando o ego toma conta da criação a ponto de torná-la apenas um exercício de validação pessoal. Mas, se há um equilíbrio, se a arte também dialoga com algo maior, toca outras pessoas, levanta questões, emociona — então deixa de ser apenas sobre quem a cria.

    E mesmo que fosse só sobre mim, será que não há valor nisso? A arte também pode ser um caminho de autoconhecimento e, ao me conhecer melhor, acabo, inevitavelmente, criando algo que pode ressoar em outras pessoas.

    Talvez o caminho não seja evitar o ego, mas usá-lo de forma consciente como um meio de expressão, não um fim em si mesmo.

  • A moradia afectiva

    A minha moradia afectiva tem os melhores quartos com a luz já apagada. No grande salão somos já poucos.
    X – 05.2025
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    Com o desaparecimento das pessoas que tinham sobre mim um olhar que me dava profundo significado e sentido à vida, talvez a criação organizada e a sua publicação seja um desejo interior, uma necessidade vital de procurar uns Outros que me compensem a perda. Encontrar no Outro, agora anónimo, a satisfação do «o meu desejo é o desejo de ser desejada».

  • O equívoco da vaidade ou o ego e a criação

    A minha sensibilidade, formação crítica e exigência na forma de estar impuseram-me um bloqueio de tudo o que fosse criação. Um auto julgamento ético muito centrado, travou-me o entendimento e a aceitação de que a criação não tem de ser, por definição, vaidosa e egótica. Durante muito tempo, a criação pareceu-me um território minado pela vaidade +

    Havia em mim uma desconfiança constante: será que criar e partilhar não é apenas uma forma subtil de desejar palco?

    O meu juízo foi severo, e quase sempre moral e ao qual juntei um imenso pudor.

    Publicar, nunca, a não ser que pudesse provar, como quem se justifica interiormente, que o gesto era puro, necessário e mesmo involuntário. Esta exigência de pureza criativa é, em si mesma, uma armadilha. Impõe ao criador uma vigilância permanente: só posso criar se estiver acima do desejo de ser vista. Como se o desejo de comunicação — mesmo que íntimo, mesmo que sussurrado — fosse em si um pecado de vaidade.

    Hoje começo a desfazer esse equívoco.

    A criação não é, por definição, vaidosa. Pode sê-lo, claro. Pode ser usada como ornamento, exibição, clamor por atenção, reconhecimento social e prebendas. Mas também pode ser outra coisa: um gesto de escuta, de restituição, de sentido. Um modo de dar forma ao que nos atravessa, mesmo que seja influenciado pelo ego e o narcisismo e que, tantas vezes, não sabemos dizer de outra maneira.

    A vaidade não está na obra, mas na intenção que a anima. E mesmo essa intenção é móvel, ambígua, difícil de fixar. Porque quem cria move-se muitas vezes por impulsos mistos: há prazer e dor, há busca e receio, há desejo de dizer e vontade de se esconder. Criar é um ato humano — logo, complexo.

    Começo a compreender, com mais clareza, que não é vergonhoso desejar ser vista, mesmo que não reconhecida. Que a necessidade de ressonância — de que alguém me ouça, me veja, me deseje como sujeito — é constitutiva da minha condição.

    Neste processo de descoberta, Lacan foi mais uma vez um apoio. Quando diz que o nosso desejo é o desejo do Outro, não fala de uma fraqueza, mas de uma estrutura: desejamos ser desejados e é neste reflexo que nos tornamos Sujeito e construímos a nossa identidade.

    O olhar do Outro, não um outro qualquer, mas aquele a quem concedemos a capacidade de nos dar significado — é aquilo que nos institui como tendo o desejo de. O gesto de criar, por mais íntimo que pareça, é já uma inscrição nesta relação. Ainda que eu diga “crio só para mim”, há sempre uma instância para quem o faço, mesmo que imaginária: uma testemunha possível, um olhar que me confirme.

    Não se trata, pois, de escolher entre a vaidade e a pureza, mas de reconhecer que a criação nasce de um lugar onde desejo e alteridade se entrelaçam. Criar será uma tentativa de dar forma ao que me habita, mas talvez também uma súplica muda para que isso tenha valor para alguém. Não porque precise de aplauso, mas porque preciso de existir no campo simbólico: de ser, no olhar do Outro, um sujeito com sentido e de me rever nele.

    Aceitar isso foi libertador.

    Comecei, por isso, a aceitar que posso escrever, fotografar, criar. Que posso, inclusive, mostrar. E que nada disso me retira autenticidade, se eu estiver atenta à origem do gesto. Sem me dissolver no olhar do outro, mas sem me aprisionar numa exigência ética muito castradora e infrutífera.

    Criar é agora também o assumir do risco de ser vista. E esse risco, longe de ser vaidade, pode ser o contrário disso: um gesto de coragem silenciosa, uma afirmação do humano e, até do banal, em mim. Porque não. Deixar cair a arrogância?

    Passar do pensamento e da imaginação ao acto consciente de criar foi o meu primeiro desafio. Em sequência, o mais difícil e que ainda me convoca a relutância e uma avaliação bastante crítica dos meus próprios objectivos, foi este passo seguinte: mostrar.
    Mas publicar pode ser um ato de partilha, de generosidade, até de libertação. E mesmo que haja um desejo de reconhecimento, isso não invalida o gesto criativo. O que importa é a pulsão e consciência com que se faz. A fronteira entre vaidade e expressão autêntica não está no gesto de criar, mas na intenção e na escuta interior.

    Há um orgulho legítimo que não é vaidade: é respeito pelo que se constrói, é alegria de ver algo que antes não existia.