A minha sensibilidade, formação crítica e exigência na forma de estar impuseram-me um bloqueio de tudo o que fosse criação. Um auto julgamento ético muito centrado, travou-me o entendimento e a aceitação de que a criação não tem de ser, por definição, vaidosa e egótica. Durante muito tempo, a criação pareceu-me um território minado pela vaidade +
Havia em mim uma desconfiança constante: será que criar e partilhar não é apenas uma forma subtil de desejar palco?
O meu juízo foi severo, e quase sempre moral e ao qual juntei um imenso pudor.
Publicar, nunca, a não ser que pudesse provar, como quem se justifica interiormente, que o gesto era puro, necessário e mesmo involuntário. Esta exigência de pureza criativa é, em si mesma, uma armadilha. Impõe ao criador uma vigilância permanente: só posso criar se estiver acima do desejo de ser vista. Como se o desejo de comunicação — mesmo que íntimo, mesmo que sussurrado — fosse em si um pecado de vaidade.
Hoje começo a desfazer esse equívoco.
A criação não é, por definição, vaidosa. Pode sê-lo, claro. Pode ser usada como ornamento, exibição, clamor por atenção, reconhecimento social e prebendas. Mas também pode ser outra coisa: um gesto de escuta, de restituição, de sentido. Um modo de dar forma ao que nos atravessa, mesmo que seja influenciado pelo ego e o narcisismo e que, tantas vezes, não sabemos dizer de outra maneira.
A vaidade não está na obra, mas na intenção que a anima. E mesmo essa intenção é móvel, ambígua, difícil de fixar. Porque quem cria move-se muitas vezes por impulsos mistos: há prazer e dor, há busca e receio, há desejo de dizer e vontade de se esconder. Criar é um ato humano — logo, complexo.
Começo a compreender, com mais clareza, que não é vergonhoso desejar ser vista, mesmo que não reconhecida. Que a necessidade de ressonância — de que alguém me ouça, me veja, me deseje como sujeito — é constitutiva da minha condição.
Neste processo de descoberta, Lacan foi mais uma vez um apoio. Quando diz que o nosso desejo é o desejo do Outro, não fala de uma fraqueza, mas de uma estrutura: desejamos ser desejados e é neste reflexo que nos tornamos Sujeito e construímos a nossa identidade.
O olhar do Outro, não um outro qualquer, mas aquele a quem concedemos a capacidade de nos dar significado — é aquilo que nos institui como tendo o desejo de. O gesto de criar, por mais íntimo que pareça, é já uma inscrição nesta relação. Ainda que eu diga “crio só para mim”, há sempre uma instância para quem o faço, mesmo que imaginária: uma testemunha possível, um olhar que me confirme.
Não se trata, pois, de escolher entre a vaidade e a pureza, mas de reconhecer que a criação nasce de um lugar onde desejo e alteridade se entrelaçam. Criar será uma tentativa de dar forma ao que me habita, mas talvez também uma súplica muda para que isso tenha valor para alguém. Não porque precise de aplauso, mas porque preciso de existir no campo simbólico: de ser, no olhar do Outro, um sujeito com sentido e de me rever nele.
Aceitar isso foi libertador.
Comecei, por isso, a aceitar que posso escrever, fotografar, criar. Que posso, inclusive, mostrar. E que nada disso me retira autenticidade, se eu estiver atenta à origem do gesto. Sem me dissolver no olhar do outro, mas sem me aprisionar numa exigência ética muito castradora e infrutífera.
Criar é agora também o assumir do risco de ser vista. E esse risco, longe de ser vaidade, pode ser o contrário disso: um gesto de coragem silenciosa, uma afirmação do humano e, até do banal, em mim. Porque não. Deixar cair a arrogância?
Passar do pensamento e da imaginação ao acto consciente de criar foi o meu primeiro desafio. Em sequência, o mais difícil e que ainda me convoca a relutância e uma avaliação bastante crítica dos meus próprios objectivos, foi este passo seguinte: mostrar.
Mas publicar pode ser um ato de partilha, de generosidade, até de libertação. E mesmo que haja um desejo de reconhecimento, isso não invalida o gesto criativo. O que importa é a pulsão e consciência com que se faz. A fronteira entre vaidade e expressão autêntica não está no gesto de criar, mas na intenção e na escuta interior.
Há um orgulho legítimo que não é vaidade: é respeito pelo que se constrói, é alegria de ver algo que antes não existia.
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