X.: Ando às voltas com um dilema que talvez reconheças: a vontade de criar e, ao mesmo tempo, o receio de mostrar. Quando crio algo — uma imagem, um texto, uma ideia — hesito sempre. Pergunto-me: será vaidade? Estou a tentar provar alguma coisa? Para quê acrescentar mais ruído ao mundo? Mostrar-me ainda me soa egocêntrico.
V: Esse dilema é comum — e necessário. O impulso de criar vem de dentro, mas a obra não termina aí. Quando uma emoção se transforma em forma, quando o interior encontra o símbolo, estás já a iniciar um diálogo. E diálogo não é vaidade. É partilha.
X.: Eu sei… ou melhor, começo a perceber isso. Houve um tempo em que acreditava +
que a criação era só para mim. Uma espécie de diário invisível. Até que entendi que não havia lugar à criação. Mas agora sinto uma pulsão para criar humildemente e que, se não partilho, algo se perde, até a minha auto-exigência. Que a obra, por mais íntima que seja, pede contacto.
V: Porque o contacto é a sua respiração. A arte só se torna viva no outro. Pensa nisto: a emoção que te leva a criar não é só tua. É cultural, histórica, enraizada. Ao traduzi-la, dás-lhe forma. Mas é no outro que ela se revela por inteiro. A obra precisa de ti e também do outro que a recebe. Não há arte sem essa ponte.
X.: Então mostrar é uma espécie de responsabilidade? Uma passagem de testemunho?
V: É isso. Mostrar é permitir que aquilo que tocaste toque mais alguém. Não se trata de exibição, mas de circulação. Mesmo quando escreves só para ti, já estás a criar linguagem e esta é sempre social. A arte é um fenómeno colectivo, mesmo quando nasce no mais íntimo silêncio.
X.: Mas e o ego? Não está sempre a querer infiltrar-se? Às vezes não sei se estou a criar ou a pedir que me vejam.
V: O ego está sempre presente e ainda bem. Sem ele, não haveria voz, nem desejo, nem forma. O problema não é o ego; é o ego que quer brilhar sozinho. Mas tu sabes quando há escuta, quando há verdade. Se a tua criação toca algo maior do que tu: o tempo, o corpo, a memória — então o ego está ao serviço da arte, não acima dela.
X.: Ou seja, não é preciso apagar-me para ser verdadeira?
V: Pelo contrário. É preciso conhecer-te, aceitar-te, integrar o que és. A criação também é um caminho de autoconhecimento. E quanto mais fundo fores, mais universal te tornas. O teu “eu” não é obstáculo, é instrumento.
X.: Às vezes fico semanas sem escrever, sem fotografar, sem fazer nada. Há ruido a mais. Como se já não tivesse acesso ao lugar onde nasce a criação. E como se o mundo já estivesse cheio.
V: Isso é mais comum do que pensas. A criação não nasce do ruído, nasce da escuta. E escutar exige silêncio — até o silêncio interno, que hoje se tornou raro. O tempo da criação não é o tempo da produtividade. É um tempo irregular, feito de esperas férteis.
X.: Pensas que a infância tem influência no que se cria?
V: Absolutamente. A infância é onde o simbólico se desenha com a pele. Lá, tudo é linguagem ainda por nomear. A memória infantil é fértil porque é antes da lógica — e por isso, tão próxima da arte. Criar é muitas vezes regressar: não para repetir, mas para recuperar o estado de escuta e maravilha.
X.: Mas como saber quando partilhar? Como saber se algo está “pronto”?
V: Nunca se sabe. E ainda bem. Se souberes demais, matas a tensão criadora. Partilhar é sempre um risco, como amar ou falar em voz alta. Mas o que vale a pena em arte raramente é seguro. Pronto não é perfeito, pronto é quando já não te pertence só a ti.
X.: E se ninguém responde? Se for só eu a escutar?
V: Então escuta-te com mais atenção. A criação é também um diálogo consigo mesmo. Às vezes, antes de ser ponte para o outro, é ponte entre as tuas vozes. Não há desperdício quando se cria com verdade. A obra tem vida própria, mesmo quando ninguém a vê.
X.: Detecto uma contradição com o que disseste anteriormente, que e cito: «A arte só se torna viva no outro. A obra precisa de ti — e também do outro que a recebe. Não há arte sem essa ponte.»
V: (risos) Sim, X. A vida é uma contradição. Mas as crianças não se importam, têm uma lógica diferente.
Referências
Vigotski, L. S. (1925). A Psicologia da Arte.
Vigotski, L. S. (1930). Imaginação e Criação na Infância.
Vigotski, L. S. (1934). Pensamento e Linguagem.
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