X.: L., a tua frase ‘O desejo do homem é o desejo do Outro’ tem-me perseguido. Sempre que penso em publicar algo — uma foto, um texto — essa ideia vem. Será que quero mesmo mostrar ou quero ser desejada por quem verá o que mostro?
L: É inevitável. O desejo nunca é solitário. Ele estrutura-se a partir do olhar do Outro. Publicar é fazer-se ver e, nesse movimento, perguntar: que lugar ocupo no desejo daquele que me olha?
X.: Mas isso não esvazia a criação? Não a torna dependente de reconhecimento alheio?
L: Não é uma questão de dependência, mas de estrutura. O sujeito é constituído no campo do Outro. Mesmo quando crês que estás a criar para ti, crias com uma audiência interiorizada. O gesto de publicar torna apenas visível o que já era relacional.
X.: Então publicar é, de certa forma, expor o desejo? +
L: Exatamente. Expor-se ao desejo do Outro é um risco e, ao mesmo tempo, uma necessidade. Mas há uma diferença entre publicar para ser reconhecida, ou seja, para ser confirmada e publicar para sustentar a própria posição desejante. Esta última é ética.
X.: Como posso saber se estou a fazer por desejo ou por necessidade de validação?
L: Não saberás de forma plena. O desejo é sempre enviesado, nunca se apresenta nu. Mas é possível escutar a posição de onde falas. Quando publicas, estás a tentar inscrever-te simbolicamente no campo do Outro. A questão é: esse gesto vem da tua verdade ou da tua fantasia de completude?
X.: Há momentos em que sinto que só o silêncio é verdadeiro. Que publicar me retira profundidade.
L: O silêncio também fala, mas não te iludas: ele não é mais puro. Pode ser recusa, defesa, sintoma. O que importa é saber o que o silêncio tenta evitar. Publicar não é trair o íntimo — pode ser a sua travessia.
X.: Então publicar pode ser também uma forma de sustentar o desejo?
L: Sim, se não fores engolida pela procura de amor. Publicar, quando alinhado com o desejo, é um acto. E o acto implica corte, risco, inscrição. Ele não procura agradar, mas marcar.
X.: E se ninguém responder? Se não houver eco?
L: Isso é o Real. O vazio da resposta é estrutural. Publicar não garante laço, apenas o convoca. E nesse intervalo entre o gesto e a resposta possível, estás tu, desejante. A pergunta não é ‘será que vão ver?’, mas ‘o que significa que eu mostre?’
Referências
Lacan, J. (1958). O Seminário, Livro 6: O Desejo e sua Interpretação.
Lacan, J. (1960). Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano.
Lacan, J. (1973). O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise
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