• Teresa – sem culpa formada

    Algo no rosto do colega começou a irritá-la. Seria do velho hábito de associar feições a carácter? Ou por ele não a olhar nos olhos? Precisava desse contacto. Era assim que exercia um certo hipnotismo e parecia atenta, quando, na verdade, nada no olhar devolvido correspondia a verdadeiro interesse. Não era de simpatias orgânicas, nem formais. Aproximava-se dos outros com uma liberdade quase radical e familiarizar com todos era algo que a constituía, que aparecia naturalmente. Dava-se facilmente nas conversas mais casuais – mas tudo podia mudar bruscamente, de um momento para o outro. Era aquela centelha de tempo em que se sentia aprisionada na conversa? Ou quando se apercebia de que o seu brilho inicial não podia ser mantido, era já obrigação? Perpetuar o que nela era genuíno, mas bastante fugaz era desconfortável.+

    «É tudo tão fácil de dominar», pensou. Mas a boca dele não parava de falar e o olhar mantinha-se oblíquo e descendente. Para as mamas não era; trazia gola alta e um sobretudo cruzado. Também era olhos nos olhos que Teresa terminava conversas, sem que dissesse palavra: sustinha uma linha recta e fixa entre eles, até que o interlocutor, a pouco e pouco, ia perdendo o foco, cedendo, esmorecia e acabava neutro, apagado.

    «Pronto agora cale-se; sei tudo o que possa dizer, já só aborrece», exclamou internamente. Ou seria das bochechas? «Concentra-te, as pessoas merecem respeito». Era inverno, mas àquela hora, com o sol a pique, a gola alta começava a irritar-lhe o pescoço. E aquele brilho húmido na pele dele que se expandia com o sorriso e quase desaparecia ao calar-se. Carne, se ao menos mesmo gordos, mesmo rotundos, a tez se mantivesse nacarada com veios de mármore. Lembrou-se das mulheres de Rubens. «Concentra-te. Ah, vai finalmente calar-se. Certo.» Finalmente livre. Rapidamente se recompôs na direção do seu interior. Evitou rever-se nas montras. Carne, chega de carne por agora.

    Entrou no primeiro café que tinha mesa à janela e sentou-se. Fez de conta que não tinha pressa. Quis convencer-se. Talvez nem tivesse. Nada sai do sítio se eu me deixar estar aqui o tempo da ausência.

    Não demonstrava pressa, da mesma forma que não via o que podia não gostar naqueles que amava. Protegia-se, com afinco inato, da exposição ao banal, ao feio, ao defeito. Mas protegia-se a si, ao outro ou ao sentimento que tinha?

    Atendeu-a aquele tipo de miúda que nascia com um eterno ar de perfeição; de banho tomado. Nem sempre era por herança económica ou social. Era um gene que prescindia das normas testamentárias de classe e aparecia em raparigas de todos os quadrantes. Uma lotaria: o gene da limpeza intrínseca. Teresa gostava de pensar que o tinha, mas sabia que não. Não no corpo. Era demasiado presente, com falhas: o cabelo com autonomia, a pele que ruborizava. As borbulhas da adolescência que lhe retardaram o desejo de ser apalpada. Mais tarde recuperou o tempo perdido. Aquele gene não tinha, mas fora substituído por outro: um sistema de circuitos neuronais higiénicos. Uma limpeza elaborada com um resultado mais cruel e definitivo: o de apagar-se. Não deixar rasto. Apagar os vestígios do que sentira ou pensara sentir. Para memória futura queria ser apenas silêncio. Sentia pudor mesmo que, por essa altura, estivesse morta e nada lhe devesse já importar.

    “Limpeza emocional”, disseram-lhe uma vez. Achou graça. Como se fosse uma coisa boa, terapêutica. Não era. Era aniquilação organizada. A visão de alguém a mexer-lhe no telemóvel levou-a a tirá-lo do bolso. Selecionou as últimas fotos e apagou-as. Depois eliminou-as definitivamente. Apagou também o histórico de pesquisas. O verdadeiro problema, o motivo da permanência de mágoas, era que o que não se vê, não se apaga. Pousou o telemóvel virado para baixo, encostou a cabeça ao vidro e fechou os olhos.

    «Porque é que sou tão rígida? As pessoas necessitam de se ouvir, de preencher vazios». Oscilava agora, como sempre, entre a crispação que o convívio duradouro lhe provocava e a culpa que sentia por não estar nunca verdadeiramente presente.

    Tirou o casaco e largou-o na cadeira. Tinha acabado por suar dentro dele, mas era um pequeno preço a pagar pela imagem que queria controlada. Talvez não parecesse aos que olhavam o mundo com desatenção e pelo óbvio. Era necessário um olhar conhecedor, intuitivo também, do que era uma mulher cuidada. Com cuidado, talvez. Era isso: uma mulher com cuidado com o que era.

    Tinha muitas cenografias, mas duas que se destacavam: a estruturada, minimal no corte, nos tons e nos tecidos e a romântica, cheia de pormenores. Há muito que não colocava um vestido. Lembrou-se de um da infância e ainda tentou resistir – lá vou eu para o passado – mas já era tarde. «Traz-me uma água, por favor?» Enquanto esperava, viu-se vestida com ele e a correr. Andava sempre a correr em criança. Olhou em volta – curioso como o gene da limpeza não se estendia ao ambiente. O que eram aquelas caixas de guardanapos sujas, de meses e meses a servir de ordenamento às mesas? Coisas para limpar guardadas na porcaria. Uma certa ordem, mas descuidada. Sempre com a fronteira instalada entre o que é nosso e o que é de todos. As pessoas, tal como as épocas e os objectos, têm camadas instáveis e em conflito. Uma caixa imunda com guardanapos brancos; uma garota de porcelana, mas onde facilmente se encontrava a camada mais rústica.

    Olhou pelo vidro embaciado e viu-o do outro lado do passeio. O colega também a viu ou pareceu-lhe. Pensou em levantar-se para evitar nova conversa, já não de trabalho, mas de ocasião. Era perita em mantê-las, mas também profissional a esquivar-se. Procurou moedas na carteira. Virou-se para a montra enquanto se levantava, para lhe dar a entender que não estava a escapar do encontro fortuito; apenas seguia o seu rumo. Enquanto atravessava a passadeira, ele olhou-a. Pela primeira vez, olhos nos olhos. Um som surdo de travagem e todos se viraram no sentido da passadeira. Deixou moedas na mesa e saiu. Virou na direcção contrária.

    «Meu Deus, o que é que eu fiz?»

  • Uma conversa entre X. e Lacan

    X.: L., a tua frase ‘O desejo do homem é o desejo do Outro’ tem-me perseguido. Sempre que penso em publicar algo — uma foto, um texto — essa ideia vem. Será que quero mesmo mostrar ou quero ser desejada por quem verá o que mostro?
    L: É inevitável. O desejo nunca é solitário. Ele estrutura-se a partir do olhar do Outro. Publicar é fazer-se ver e, nesse movimento, perguntar: que lugar ocupo no desejo daquele que me olha?
    X.: Mas isso não esvazia a criação? Não a torna dependente de reconhecimento alheio?
    L: Não é uma questão de dependência, mas de estrutura. O sujeito é constituído no campo do Outro. Mesmo quando crês que estás a criar para ti, crias com uma audiência interiorizada. O gesto de publicar torna apenas visível o que já era relacional.
    X.: Então publicar é, de certa forma, expor o desejo?
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    L: Exatamente. Expor-se ao desejo do Outro é um risco e, ao mesmo tempo, uma necessidade. Mas há uma diferença entre publicar para ser reconhecida, ou seja, para ser confirmada e publicar para sustentar a própria posição desejante. Esta última é ética.
    X.: Como posso saber se estou a fazer por desejo ou por necessidade de validação?
    L: Não saberás de forma plena. O desejo é sempre enviesado, nunca se apresenta nu. Mas é possível escutar a posição de onde falas. Quando publicas, estás a tentar inscrever-te simbolicamente no campo do Outro. A questão é: esse gesto vem da tua verdade ou da tua fantasia de completude?
    X.: Há momentos em que sinto que só o silêncio é verdadeiro. Que publicar me retira profundidade.
    L: O silêncio também fala, mas não te iludas: ele não é mais puro. Pode ser recusa, defesa, sintoma. O que importa é saber o que o silêncio tenta evitar. Publicar não é trair o íntimo — pode ser a sua travessia.
    X.: Então publicar pode ser também uma forma de sustentar o desejo?
    L: Sim, se não fores engolida pela procura de amor. Publicar, quando alinhado com o desejo, é um acto. E o acto implica corte, risco, inscrição. Ele não procura agradar, mas marcar.
    X.: E se ninguém responder? Se não houver eco?
    L: Isso é o Real. O vazio da resposta é estrutural. Publicar não garante laço, apenas o convoca. E nesse intervalo entre o gesto e a resposta possível, estás tu, desejante. A pergunta não é ‘será que vão ver?’, mas ‘o que significa que eu mostre?’

    Referências
    Lacan, J. (1958). O Seminário, Livro 6: O Desejo e sua Interpretação.
    Lacan, J. (1960). Subversão do sujeito e dialética do desejo no inconsciente freudiano.
    Lacan, J. (1973). O Seminário, Livro 11: Os Quatro Conceitos Fundamentais da Psicanálise

  • Uma conversa entre X. e Vigotski

    X.: Ando às voltas com um dilema que talvez reconheças: a vontade de criar e, ao mesmo tempo, o receio de mostrar. Quando crio algo — uma imagem, um texto, uma ideia — hesito sempre. Pergunto-me: será vaidade? Estou a tentar provar alguma coisa? Para quê acrescentar mais ruído ao mundo? Mostrar-me ainda me soa egocêntrico.
    V: Esse dilema é comum — e necessário. O impulso de criar vem de dentro, mas a obra não termina aí. Quando uma emoção se transforma em forma, quando o interior encontra o símbolo, estás já a iniciar um diálogo. E diálogo não é vaidade. É partilha.
    X.: Eu sei… ou melhor, começo a perceber isso. Houve um tempo em que acreditava
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    que a criação era só para mim. Uma espécie de diário invisível. Até que entendi que não havia lugar à criação. Mas agora sinto uma pulsão para criar humildemente e que, se não partilho, algo se perde, até a minha auto-exigência. Que a obra, por mais íntima que seja, pede contacto.

    V: Porque o contacto é a sua respiração. A arte só se torna viva no outro. Pensa nisto: a emoção que te leva a criar não é só tua. É cultural, histórica, enraizada. Ao traduzi-la, dás-lhe forma. Mas é no outro que ela se revela por inteiro. A obra precisa de ti e também do outro que a recebe. Não há arte sem essa ponte.

    X.: Então mostrar é uma espécie de responsabilidade? Uma passagem de testemunho?

    V: É isso. Mostrar é permitir que aquilo que tocaste toque mais alguém. Não se trata de exibição, mas de circulação. Mesmo quando escreves só para ti, já estás a criar linguagem e esta é sempre social. A arte é um fenómeno colectivo, mesmo quando nasce no mais íntimo silêncio.

    X.: Mas e o ego? Não está sempre a querer infiltrar-se? Às vezes não sei se estou a criar ou a pedir que me vejam.

    V: O ego está sempre presente e ainda bem. Sem ele, não haveria voz, nem desejo, nem forma. O problema não é o ego; é o ego que quer brilhar sozinho. Mas tu sabes quando há escuta, quando há verdade. Se a tua criação toca algo maior do que tu: o tempo, o corpo, a memória — então o ego está ao serviço da arte, não acima dela.

    X.: Ou seja, não é preciso apagar-me para ser verdadeira?

    V: Pelo contrário. É preciso conhecer-te, aceitar-te, integrar o que és. A criação também é um caminho de autoconhecimento. E quanto mais fundo fores, mais universal te tornas. O teu “eu” não é obstáculo, é instrumento.

    X.: Às vezes fico semanas sem escrever, sem fotografar, sem fazer nada. Há ruido a mais. Como se já não tivesse acesso ao lugar onde nasce a criação. E como se o mundo já estivesse cheio.

    V: Isso é mais comum do que pensas. A criação não nasce do ruído, nasce da escuta. E escutar exige silêncio — até o silêncio interno, que hoje se tornou raro. O tempo da criação não é o tempo da produtividade. É um tempo irregular, feito de esperas férteis.

    X.: Pensas que a infância tem influência no que se cria?

    V: Absolutamente. A infância é onde o simbólico se desenha com a pele. Lá, tudo é linguagem ainda por nomear. A memória infantil é fértil porque é antes da lógica — e por isso, tão próxima da arte. Criar é muitas vezes regressar: não para repetir, mas para recuperar o estado de escuta e maravilha.

    X.: Mas como saber quando partilhar? Como saber se algo está “pronto”?

    V: Nunca se sabe. E ainda bem. Se souberes demais, matas a tensão criadora. Partilhar é sempre um risco, como amar ou falar em voz alta. Mas o que vale a pena em arte raramente é seguro. Pronto não é perfeito, pronto é quando já não te pertence só a ti.

    X.: E se ninguém responde? Se for só eu a escutar?

    V: Então escuta-te com mais atenção. A criação é também um diálogo consigo mesmo. Às vezes, antes de ser ponte para o outro, é ponte entre as tuas vozes. Não há desperdício quando se cria com verdade. A obra tem vida própria, mesmo quando ninguém a vê.

    X.: Detecto uma contradição com o que disseste anteriormente, que e cito: «A arte só se torna viva no outro. A obra precisa de ti — e também do outro que a recebe. Não há arte sem essa ponte.»

    V: (risos) Sim, X. A vida é uma contradição. Mas as crianças não se importam, têm uma lógica diferente.

    Referências
    Vigotski, L. S. (1925). A Psicologia da Arte.
    Vigotski, L. S. (1930). Imaginação e Criação na Infância.
    Vigotski, L. S. (1934). Pensamento e Linguagem.

  • Uma conversa entre X. e um Psicanalista

    X.: Sinto que, ao criar, estou a expressar algo profundamente meu. Mas, quando penso em publicar, surge uma inquietação: será que estou a procurar validação externa? Como a psicanálise vê essa tensão entre o impulso criativo e o desejo de reconhecimento?
    P: A tua inquietação é compreensível. A psicanálise entende que o acto de criar está profundamente ligado ao inconsciente, sendo uma forma de expressão de desejos, conflitos e experiências internas. Publicar, por sua vez, introduz o olhar do outro, o que pode despertar o desejo de reconhecimento. No entanto, esse desejo não invalida a autenticidade da criação; pelo contrário, pode ser parte integrante do processo criativo.
    X.: Então, o desejo de ser reconhecida não necessariamente compromete a integridade da obra?
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    P: Exactamente. O desejo de reconhecimento é humano e pode coexistir com a autenticidade artística. O importante é estar consciente desse desejo e refletir sobre como ele influencia o teu processo criativo. A psicanálise sugere que, ao reconheceres esses desejos, podes integrá-los de forma saudável na tua expressão artística.
    X.: A criação pode ser uma forma de autoconhecimento, então? Ou terapêutica, até?
    P: Sem dúvida. Criar é uma forma de dialogar contigo mesma, de explorar e compreender as tuas emoções, desejos e experiências. A psicanálise valoriza esse aspecto da criação como um caminho para o autoconhecimento e a transformação pessoal.
    Também muitos processos criativos têm origem em conflitos internos, mesmo que subliminares. A psicanálise vê a criação como uma forma de sublimação, onde impulsos e emoções intensas são transformados em expressões artísticas. Este processo pode ser terapêutico, permitindo uma elaboração simbólica de experiências difíceis.

  • A visão individualista e o diálogo

    A decisão de criar e mostrar reflete uma transição importante na mentalidade de quem cria: a passagem da visão individualista para uma percepção mais ampla do impacto do seu trabalho.
    Muitos artistas, escritores e criadores em geral hesitam em expor o seu trabalho por entenderem que o acto de se mostrar ao mundo é um movimento egocêntrico. No entanto, há um momento em que essa perspectiva se expande: a criação deixa de ser apenas um acto pessoal e passa a ser uma forma de comunicação e diálogo com o mundo.
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    Isto ocorre porque a arte e a criatividade têm um papel essencial na cultura e na sociedade. Seja na literatura, na música, nas artes visuais ou em qualquer outra forma de expressão, aquilo que se cria pode gerar identificação, reflexão e transformação nos outros. A obra como algo que pertence não só ao criador, mas ao público que a recebe e interage com ela.

    A arte é um diálogo, e guardá-la apenas para si pode ser um desperdício do seu potencial. Esse pensamento ressoa muito com a ideia de que a criatividade é um fluxo que precisa de ser compartilhado, não acumulado. Afinal, grandes obras e movimentos artísticos só se tornam significativos porque foram colocados no mundo e permitiram que outras pessoas se conectassem a eles.

    A criatividade, quando compartilhada, vai muito além da vaidade. O que se cria pode inspirar, emocionar, fazer alguém reflectir ou até simplesmente trazer beleza para o dia de outra pessoa.

    A arte não precisa de uma justificativa além da própria vontade de existir. E se alguém se identificar, já terá valido a pena.

    Desafiar os próprios bloqueios e crenças limitantes abre espaço para descobertas incríveis.

    Há mesmo um lado egótico na arte e na escrita — afinal, criar envolve expressar algo que vem de dentro, dar forma ao próprio olhar sobre o mundo. Mas será que isto é um problema?

    O ego não é necessariamente algo negativo. Ele é parte do que nos torna humanos, do que nos dá identidade. O problema acontece quando o ego toma conta da criação a ponto de torná-la apenas um exercício de validação pessoal. Mas, se há um equilíbrio, se a arte também dialoga com algo maior, toca outras pessoas, levanta questões, emociona — então deixa de ser apenas sobre quem a cria.

    E mesmo que fosse só sobre mim, será que não há valor nisso? A arte também pode ser um caminho de autoconhecimento e, ao me conhecer melhor, acabo, inevitavelmente, criando algo que pode ressoar em outras pessoas.

    Talvez o caminho não seja evitar o ego, mas usá-lo de forma consciente como um meio de expressão, não um fim em si mesmo.

  • A moradia afectiva

    A minha moradia afectiva tem os melhores quartos com a luz já apagada. No grande salão somos já poucos.
    X – 05.2025
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    Com o desaparecimento das pessoas que tinham sobre mim um olhar que me dava profundo significado e sentido à vida, talvez a criação organizada e a sua publicação seja um desejo interior, uma necessidade vital de procurar uns Outros que me compensem a perda. Encontrar no Outro, agora anónimo, a satisfação do «o meu desejo é o desejo de ser desejada».

  • O tijolo sagrado

    Com alguma atividade profissional em estaleiros de construção, e no exercício dessa função, descobri que o meu olhar encontrava beleza onde outros viam apenas um ambiente hostil.
    As minhas imagens são captadas num instante, sem qualquer preparação, nem encenação. +

    Sem planeamento, sem montagem, sem autorização formal — num gesto secreto, mesmo clandestino. Não há tempo, espaço ou permissão para construir a fotografia. São fragmentos instantâneos de um quotidiano que não foi pensado inicialmente para ser visto como arte, mas que me atravessa como linguagem e necessidade interior. Vejo a imagem como que pronta e só carrego no botão.
    Observo sem interromper, registo sem interferir.
    A fotografia surgiu como extensão natural do meu olhar e forma de estar, não como prática formal. Particular e íntima também. Nunca estudei fotografia. O equipamento usado é um telemóvel, com possíveis limitações evidentes.
    Na repetição dos dias, fui percebendo que havia ali uma poética da resistência — do que resiste ao ruído, à pressa, ao esquecimento. A série que apresento reúne 18 dessas imagens, unidas por uma linguagem visual crua, mínima e silenciosa. Há nelas um certo improviso operário, uma geometria nas sombras e nas texturas.
    Sei que tecnicamente estas fotografias não serão perfeitas. Existirão falhas de nitidez, ruído, zonas escuras onde poderia haver detalhe. Mas entendi que estes «erros» estão em absoluta consonância com a forma como vejo, o que atribui maior coerência final ao que registo.
    É neste intervalo — entre o que falha e o que resiste, mesmo assim, de belo — que encontro a minha linguagem.
    Esta é uma série feita de restos, de vestígios e de improvisações. É também o retrato de um olhar que, mesmo condicionado pelo tempo, pelas circunstâncias e pelo equipamento, insiste em procurar o que há de mais humano e mesmo sagrado nos lugares mais endurecidos.
    Mas é, sobretudo, um retrato da luz — e de tudo o que ela ainda consegue elevar, mesmo quando já não se espera nada. Uma luz que entra de forma inesperada em espaços brutos e inóspitos, tocando objetos sujos, improvisados e elevando-os. Uma luz que parece emprestar uma delicadeza quase espiritual à matéria crua. Como se, por instantes, estes elementos abandonados e temporários adquirissem um sentido maior. Há algo de litúrgico no modo como a claridade deles se apropria.
    O meu olhar, inato e instintivamente contido, encontra a presença. Isto permite-me estar em locais inóspitos e continuar a intuir a poesia descarnada, mas litúrgica.
    Não procuro o espetáculo do feito, mas o silêncio denso do por fazer. Neste inacabado habita uma promessa: a de que cada espaço é também uma história por escrever, como se o espaço ainda sonhasse consigo mesmo.
    A série percorre espaços em transição fotografados no intervalo entre a função e o abandono.
    A luz torna-se protagonista. O improviso humano, um traço visual. E o inacabado, a verdadeira matéria estética. O tijolo sagrado.

  • O equívoco da vaidade ou o ego e a criação

    A minha sensibilidade, formação crítica e exigência na forma de estar impuseram-me um bloqueio de tudo o que fosse criação. Um auto julgamento ético muito centrado, travou-me o entendimento e a aceitação de que a criação não tem de ser, por definição, vaidosa e egótica. Durante muito tempo, a criação pareceu-me um território minado pela vaidade +

    Havia em mim uma desconfiança constante: será que criar e partilhar não é apenas uma forma subtil de desejar palco?

    O meu juízo foi severo, e quase sempre moral e ao qual juntei um imenso pudor.

    Publicar, nunca, a não ser que pudesse provar, como quem se justifica interiormente, que o gesto era puro, necessário e mesmo involuntário. Esta exigência de pureza criativa é, em si mesma, uma armadilha. Impõe ao criador uma vigilância permanente: só posso criar se estiver acima do desejo de ser vista. Como se o desejo de comunicação — mesmo que íntimo, mesmo que sussurrado — fosse em si um pecado de vaidade.

    Hoje começo a desfazer esse equívoco.

    A criação não é, por definição, vaidosa. Pode sê-lo, claro. Pode ser usada como ornamento, exibição, clamor por atenção, reconhecimento social e prebendas. Mas também pode ser outra coisa: um gesto de escuta, de restituição, de sentido. Um modo de dar forma ao que nos atravessa, mesmo que seja influenciado pelo ego e o narcisismo e que, tantas vezes, não sabemos dizer de outra maneira.

    A vaidade não está na obra, mas na intenção que a anima. E mesmo essa intenção é móvel, ambígua, difícil de fixar. Porque quem cria move-se muitas vezes por impulsos mistos: há prazer e dor, há busca e receio, há desejo de dizer e vontade de se esconder. Criar é um ato humano — logo, complexo.

    Começo a compreender, com mais clareza, que não é vergonhoso desejar ser vista, mesmo que não reconhecida. Que a necessidade de ressonância — de que alguém me ouça, me veja, me deseje como sujeito — é constitutiva da minha condição.

    Neste processo de descoberta, Lacan foi mais uma vez um apoio. Quando diz que o nosso desejo é o desejo do Outro, não fala de uma fraqueza, mas de uma estrutura: desejamos ser desejados e é neste reflexo que nos tornamos Sujeito e construímos a nossa identidade.

    O olhar do Outro, não um outro qualquer, mas aquele a quem concedemos a capacidade de nos dar significado — é aquilo que nos institui como tendo o desejo de. O gesto de criar, por mais íntimo que pareça, é já uma inscrição nesta relação. Ainda que eu diga “crio só para mim”, há sempre uma instância para quem o faço, mesmo que imaginária: uma testemunha possível, um olhar que me confirme.

    Não se trata, pois, de escolher entre a vaidade e a pureza, mas de reconhecer que a criação nasce de um lugar onde desejo e alteridade se entrelaçam. Criar será uma tentativa de dar forma ao que me habita, mas talvez também uma súplica muda para que isso tenha valor para alguém. Não porque precise de aplauso, mas porque preciso de existir no campo simbólico: de ser, no olhar do Outro, um sujeito com sentido e de me rever nele.

    Aceitar isso foi libertador.

    Comecei, por isso, a aceitar que posso escrever, fotografar, criar. Que posso, inclusive, mostrar. E que nada disso me retira autenticidade, se eu estiver atenta à origem do gesto. Sem me dissolver no olhar do outro, mas sem me aprisionar numa exigência ética muito castradora e infrutífera.

    Criar é agora também o assumir do risco de ser vista. E esse risco, longe de ser vaidade, pode ser o contrário disso: um gesto de coragem silenciosa, uma afirmação do humano e, até do banal, em mim. Porque não. Deixar cair a arrogância?

    Passar do pensamento e da imaginação ao acto consciente de criar foi o meu primeiro desafio. Em sequência, o mais difícil e que ainda me convoca a relutância e uma avaliação bastante crítica dos meus próprios objectivos, foi este passo seguinte: mostrar.
    Mas publicar pode ser um ato de partilha, de generosidade, até de libertação. E mesmo que haja um desejo de reconhecimento, isso não invalida o gesto criativo. O que importa é a pulsão e consciência com que se faz. A fronteira entre vaidade e expressão autêntica não está no gesto de criar, mas na intenção e na escuta interior.

    Há um orgulho legítimo que não é vaidade: é respeito pelo que se constrói, é alegria de ver algo que antes não existia.

  • Criadora, negociante, mística, curadora, técnica, racional, cartesiana, amante e amadora ou antes, uma mulher curiosa e sempre em busca, com necessidade de transportar ideias para histórias e objectos que reflitam a sua jornada pessoal.

    Short stories, ideias, eventos, peças em venda, imagens.

    Qualquer coisa como print screens do meu universo, numa óptica de partilha e proximidade. E fuga.

  • À conversa com


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