Algo no rosto do colega começou a irritá-la. Seria do velho hábito de associar feições a carácter? Ou por ele não a olhar nos olhos? Precisava desse contacto. Era assim que exercia um certo hipnotismo e parecia atenta, quando, na verdade, nada no olhar devolvido correspondia a verdadeiro interesse. Não era de simpatias orgânicas, nem formais. Aproximava-se dos outros com uma liberdade quase radical e familiarizar com todos era algo que a constituía, que aparecia naturalmente. Dava-se facilmente nas conversas mais casuais – mas tudo podia mudar bruscamente, de um momento para o outro. Era aquela centelha de tempo em que se sentia aprisionada na conversa? Ou quando se apercebia de que o seu brilho inicial não podia ser mantido, era já obrigação? Perpetuar o que nela era genuíno, mas bastante fugaz era desconfortável.+
«É tudo tão fácil de dominar», pensou. Mas a boca dele não parava de falar e o olhar mantinha-se oblíquo e descendente. Para as mamas não era; trazia gola alta e um sobretudo cruzado. Também era olhos nos olhos que Teresa terminava conversas, sem que dissesse palavra: sustinha uma linha recta e fixa entre eles, até que o interlocutor, a pouco e pouco, ia perdendo o foco, cedendo, esmorecia e acabava neutro, apagado.
«Pronto agora cale-se; sei tudo o que possa dizer, já só aborrece», exclamou internamente. Ou seria das bochechas? «Concentra-te, as pessoas merecem respeito». Era inverno, mas àquela hora, com o sol a pique, a gola alta começava a irritar-lhe o pescoço. E aquele brilho húmido na pele dele que se expandia com o sorriso e quase desaparecia ao calar-se. Carne, se ao menos mesmo gordos, mesmo rotundos, a tez se mantivesse nacarada com veios de mármore. Lembrou-se das mulheres de Rubens. «Concentra-te. Ah, vai finalmente calar-se. Certo.» Finalmente livre. Rapidamente se recompôs na direção do seu interior. Evitou rever-se nas montras. Carne, chega de carne por agora.
Entrou no primeiro café que tinha mesa à janela e sentou-se. Fez de conta que não tinha pressa. Quis convencer-se. Talvez nem tivesse. Nada sai do sítio se eu me deixar estar aqui o tempo da ausência.
Não demonstrava pressa, da mesma forma que não via o que podia não gostar naqueles que amava. Protegia-se, com afinco inato, da exposição ao banal, ao feio, ao defeito. Mas protegia-se a si, ao outro ou ao sentimento que tinha?
Atendeu-a aquele tipo de miúda que nascia com um eterno ar de perfeição; de banho tomado. Nem sempre era por herança económica ou social. Era um gene que prescindia das normas testamentárias de classe e aparecia em raparigas de todos os quadrantes. Uma lotaria: o gene da limpeza intrínseca. Teresa gostava de pensar que o tinha, mas sabia que não. Não no corpo. Era demasiado presente, com falhas: o cabelo com autonomia, a pele que ruborizava. As borbulhas da adolescência que lhe retardaram o desejo de ser apalpada. Mais tarde recuperou o tempo perdido. Aquele gene não tinha, mas fora substituído por outro: um sistema de circuitos neuronais higiénicos. Uma limpeza elaborada com um resultado mais cruel e definitivo: o de apagar-se. Não deixar rasto. Apagar os vestígios do que sentira ou pensara sentir. Para memória futura queria ser apenas silêncio. Sentia pudor mesmo que, por essa altura, estivesse morta e nada lhe devesse já importar.
“Limpeza emocional”, disseram-lhe uma vez. Achou graça. Como se fosse uma coisa boa, terapêutica. Não era. Era aniquilação organizada. A visão de alguém a mexer-lhe no telemóvel levou-a a tirá-lo do bolso. Selecionou as últimas fotos e apagou-as. Depois eliminou-as definitivamente. Apagou também o histórico de pesquisas. O verdadeiro problema, o motivo da permanência de mágoas, era que o que não se vê, não se apaga. Pousou o telemóvel virado para baixo, encostou a cabeça ao vidro e fechou os olhos.
«Porque é que sou tão rígida? As pessoas necessitam de se ouvir, de preencher vazios». Oscilava agora, como sempre, entre a crispação que o convívio duradouro lhe provocava e a culpa que sentia por não estar nunca verdadeiramente presente.
Tirou o casaco e largou-o na cadeira. Tinha acabado por suar dentro dele, mas era um pequeno preço a pagar pela imagem que queria controlada. Talvez não parecesse aos que olhavam o mundo com desatenção e pelo óbvio. Era necessário um olhar conhecedor, intuitivo também, do que era uma mulher cuidada. Com cuidado, talvez. Era isso: uma mulher com cuidado com o que era.
Tinha muitas cenografias, mas duas que se destacavam: a estruturada, minimal no corte, nos tons e nos tecidos e a romântica, cheia de pormenores. Há muito que não colocava um vestido. Lembrou-se de um da infância e ainda tentou resistir – lá vou eu para o passado – mas já era tarde. «Traz-me uma água, por favor?» Enquanto esperava, viu-se vestida com ele e a correr. Andava sempre a correr em criança. Olhou em volta – curioso como o gene da limpeza não se estendia ao ambiente. O que eram aquelas caixas de guardanapos sujas, de meses e meses a servir de ordenamento às mesas? Coisas para limpar guardadas na porcaria. Uma certa ordem, mas descuidada. Sempre com a fronteira instalada entre o que é nosso e o que é de todos. As pessoas, tal como as épocas e os objectos, têm camadas instáveis e em conflito. Uma caixa imunda com guardanapos brancos; uma garota de porcelana, mas onde facilmente se encontrava a camada mais rústica.
Olhou pelo vidro embaciado e viu-o do outro lado do passeio. O colega também a viu ou pareceu-lhe. Pensou em levantar-se para evitar nova conversa, já não de trabalho, mas de ocasião. Era perita em mantê-las, mas também profissional a esquivar-se. Procurou moedas na carteira. Virou-se para a montra enquanto se levantava, para lhe dar a entender que não estava a escapar do encontro fortuito; apenas seguia o seu rumo. Enquanto atravessava a passadeira, ele olhou-a. Pela primeira vez, olhos nos olhos. Um som surdo de travagem e todos se viraram no sentido da passadeira. Deixou moedas na mesa e saiu. Virou na direcção contrária.
«Meu Deus, o que é que eu fiz?»



















