À conversa com


O nome Tera evoca terra, corpo, origem, mas também algo feminino e telúrico. Como chegaste a esse nome e o que ele representa?
“Tera” surgiu quase como se já existisse antes de mim. Tem essa ressonância com a terra-mãe, com o corpo que sustenta, com o feminino que cria e cuida sem se explicar. Mas também quis deixá-lo aberto — quase técnico, como uma unidade de medida. Gosto dessa ambiguidade: uma galeria que mede o invisível, o intangível. O nome foi escolhido com a pele, não com o marketing. E veio até mim numa viagem que se revelou mais fundacional do que seria de prever.

Fala-nos da ancestralidade na tua vida e na curadoria. Que lugar ocupa?
A ancestralidade, para mim, não é uma coisa do passado. É uma presença. Está nos objetos que carrego, nos silêncios que herdei, nos gestos que repito sem saber porquê. Quando escolho uma peça, não estou apenas a olhar para a sua forma, estou a escutar aquilo que ela preserva. A Tera é, nesse sentido, uma pequena tentativa de manter essas vozes vivas, mesmo quando já não se ouvem.

O teu projeto parece desafiar o mundo acelerado, descartável. O que procuras contrariar ou resgatar com a Tera?
Procuro um outro tempo. Um tempo onde as coisas não se explicam à pressa. A Tera é feita de matéria — e a matéria tem o seu ritmo. Resgatar isso, para mim, é um gesto político, poético e espiritual. Não é nostalgia. É resistência.

Há algo de sagrado no gesto de escolher ou oferecer um objeto?
Sim. Um objeto verdadeiro transporta mais do que o seu uso. Carrega intenção, história, presença, relação. Quando alguém escolhe uma peça na Tera, gosto de pensar que não está a comprar, está a acolher. E isso, para mim, é profundamente sagrado.

Em que medida este projeto és tu?
A Tera não me representa — revela-me em parte. Sou feita de multiplicidade, fragmentos, silêncios, coisas inacabadas. A galeria é isso também: um lugar onde o incompleto tem lugar.

Há uma intersecção entre a tua escrita, a fotografia e a Tera?
Sim, há um olhar que atravessa tudo. É o mesmo olhar que procura o detalhe, que sabe antes de conhecer, que escuta antes de falar, que recolhe antes de mostrar. O que me move na escrita ou na imagem é o mesmo que me move na curadoria: dar lugar ao que estava esquecido.

A Tera é um lugar fixo ou um processo em movimento?
É uma travessia.

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