Com alguma atividade profissional em estaleiros de construção, e no exercício dessa função, descobri que o meu olhar encontrava beleza onde outros viam apenas um ambiente hostil.
As minhas imagens são captadas num instante, sem qualquer preparação, nem encenação. +
Sem planeamento, sem montagem, sem autorização formal — num gesto secreto, mesmo clandestino. Não há tempo, espaço ou permissão para construir a fotografia. São fragmentos instantâneos de um quotidiano que não foi pensado inicialmente para ser visto como arte, mas que me atravessa como linguagem e necessidade interior. Vejo a imagem como que pronta e só carrego no botão.
Observo sem interromper, registo sem interferir.
A fotografia surgiu como extensão natural do meu olhar e forma de estar, não como prática formal. Particular e íntima também. Nunca estudei fotografia. O equipamento usado é um telemóvel, com possíveis limitações evidentes.
Na repetição dos dias, fui percebendo que havia ali uma poética da resistência — do que resiste ao ruído, à pressa, ao esquecimento. A série que apresento reúne 18 dessas imagens, unidas por uma linguagem visual crua, mínima e silenciosa. Há nelas um certo improviso operário, uma geometria nas sombras e nas texturas.
Sei que tecnicamente estas fotografias não serão perfeitas. Existirão falhas de nitidez, ruído, zonas escuras onde poderia haver detalhe. Mas entendi que estes «erros» estão em absoluta consonância com a forma como vejo, o que atribui maior coerência final ao que registo.
É neste intervalo — entre o que falha e o que resiste, mesmo assim, de belo — que encontro a minha linguagem.
Esta é uma série feita de restos, de vestígios e de improvisações. É também o retrato de um olhar que, mesmo condicionado pelo tempo, pelas circunstâncias e pelo equipamento, insiste em procurar o que há de mais humano e mesmo sagrado nos lugares mais endurecidos.
Mas é, sobretudo, um retrato da luz — e de tudo o que ela ainda consegue elevar, mesmo quando já não se espera nada. Uma luz que entra de forma inesperada em espaços brutos e inóspitos, tocando objetos sujos, improvisados e elevando-os. Uma luz que parece emprestar uma delicadeza quase espiritual à matéria crua. Como se, por instantes, estes elementos abandonados e temporários adquirissem um sentido maior. Há algo de litúrgico no modo como a claridade deles se apropria.
O meu olhar, inato e instintivamente contido, encontra a presença. Isto permite-me estar em locais inóspitos e continuar a intuir a poesia descarnada, mas litúrgica.
Não procuro o espetáculo do feito, mas o silêncio denso do por fazer. Neste inacabado habita uma promessa: a de que cada espaço é também uma história por escrever, como se o espaço ainda sonhasse consigo mesmo.
A série percorre espaços em transição fotografados no intervalo entre a função e o abandono.
A luz torna-se protagonista. O improviso humano, um traço visual. E o inacabado, a verdadeira matéria estética. O tijolo sagrado.


















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